Aspectos psicológicos e históricos da busca do Santo Graal

Aline Peres de Carvalho

“Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa”. (DANTE ALIGHERI, A Divina Comédia)

Na busca de sua alma e do sentido de sua vida, o homem percorre um caminho único, com experiências ; vivências e sentimentos particulares.

Sabe-se que “algumas” pessoas tem alma. E na sua trajetória vivenciaram situações onde amaram, sofreram. Adquirindo então um profundo senso do verdadeiro significado de sua vida, passando então para uma nova condição em sua vida: “O verdadeiro condutor de seu destino”, pois sabe quem e o que se é verdadeiramente.

Existem também indivíduos que “parecem” ter perdido sua alma, que perderam a condição de dar significado e sentido a sua vida. Ou que não encontram internamente a possibilidade de vir a “ser”.

Toda a busca tem um preço, e um é dizer sim a nós mesmos e ao fazê-lo tem-se a chance de se tornar mais vivo.

Não existe busca, se não houver um chamado, e este vem da necessidade da alma. Ao atender o chamado empreende-se então em uma jornada para encontrar um tesouro representado pelo self, em seguida volta-se ao ponto de partida para dar nossa contribuição no sentido de ajudar a transformar a vida.

“Como conceito empírico, o self designa toda a gama de fenômenos psíquicos do homem. Expressa a unidade da personalidade como um todo; mas, na medida em que a personalidade total, devido a seu componente incosciente, pode apenas em parte tornar-se consciente, o conceito do self é, em parte, só potencialmente empírico, e é, nesta medida, um postulado. Em outras palavras, abrange tanto aquilo que é passível de experiência, quanto aquilo que não o é (ou aquilo que não foi ainda objeto da experiência)... É um conceito transcendente, pois pressupõe a existência de fatores inconscientes com bases empíricas, caracterizando, assim, uma entidade que pode ser descrita apenas em parte”.(CW6, parag. 789)
O self não é somente o centro, mas também a circunferência total, que abarca tanto o consciente quanto o incosciente; é o centro desta totalidade, assim como o ego é o centro da consciência. (Introdução – CW12, parag. 44)

A realização do self como fator psíquico autônomo é, freqüentemente, estimulada pela irrupção de conteúdos inconscientes, sobre os quais o ego não tem controle. Isto pode resultar em neurose e em uma subseqüente renovação da personalidade, ou em uma identificação inflada com o poder superior.

As experiências do self possuem uma numinosidade, característica das revelações religiosas. Por isso, Jung acreditava que não havia nenhum diferença essencial entre o self enquanto realidade experimental e psicológica e o conceito tradicional de uma divindade suprema.

“Ele poderia, igualmente, ser chamado de o “Deus interior”.
(The mana – Personality – CW7, parag. 399)

Na procura o caminho percorrido está repleto de perigos e armadilhas, provações, mas somente à partir desta vivência é que o indivíduo adquire a capacidade de ser bem sucedido no mundo.

E ser bem sucedido pode significar estar livre das amarras dos seus aspectos inconscientes, não eliminando-os, ou negando-os. Mas se reconciliando: consigo mesmo e com o mundo.

Esta reconciliação só será possível, se atendermos ao pedido de nossa alma. Isto quer dizer: nos comprometermos com nossa vida, e redimensionar e reavaliar nossas experiências e estarmos dispostos a conhecer os nossos mistérios.

Então partimos da seguinte premissa. O indivíduo nasce com um inconsciente coletivo e no decorrer de sua existência e vivências adquire o inconsciente pessoal.

“O incosciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo portanto uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas a hereditariedade”.
(vol IX, parag. 88)

O inconsciente coletivo contém imagens universais que se pode encontrar em todas as mitologias e religiões do mundo.

A Psique do indivíduo também possui um centro ordenador e unificador da psique total (inconsciente e consciente) denominado por Jung de si-mesmo.

O Ego e a sede da identidade: subjetiva, e o si mesmo da identidade objetiva. A relação entre o ego e o si-mesmo é problemática.

“Qualquer pessoa que tenha alguma consciência do ego supõe que conhece também a si mesma: mas o ego conhece apenas seus próprios conteúdos, e não o inconsciente e seus conteúdos. As pessoas medem o conhecimento do self por aquilo que uma pessoa comum, em seu meio social, conhece de si mesma, e não pelos fatos psíquicos reais que são, em sua maior parte, desconhecidos delas. Quanto a isto, a psique comporta-se como o corpo, de cuja estrutura fisiológica e anatômica a pessoa comum sabe também muito pouco”.
(The undiscovered self – CW10, parag. 10)

Segundo Newman, nascemos num estado psíquico original, anterior ao nascimento do ego, como a uruboros, estado de totalidade.

No decorrer do desenvolvimento o ego e o si-mesmo irão se separar, e na idade adulta haverá uma rendição.

O processo de alternância entre a união ego-si-mesmo e a separação ego-si-mesmo parece ocorrer de forma contínua ao longo da vida do indivíduo, tanto na infância quanto na maturidade. Na verdade, esta fórmula cíclica parece exprimir o processo básico de desenvolvimento psicológico do nascimento à morte.
(EDINGER – Ego e Arquétipo, pg 24)

A Busca do homem de sua inteireza com Deus, pode ser entendida como a necessidade do ego (centro unificador da consciência) resgatar a si-mesmo (centro unificador de toda a estrutura psíquica).

A relação, Deus homem, é uma projeção psíquica no eixo ego-si-mesmo. Então uma pessoa individualizada refletirá a imagem do si-mesmo.

No cristianismo há o dogma: “O homem é formado a imagem e semelhança de Deus”. Num pequeno deslize dogmático se contesta: “Isso é falso, pois Deus é perfeito e o homem é imperfeito”.

O ego (homem) foi criado a imagem e semelhança do si-mesmo (Deus). Pode-se entender este estágio como a condição do paraíso. A criança ao nascer por não possuir o “eu” estruturado, ela e o mundo são um só, tudo que acontece ao seu redor é como se estivesse acontecendo com ela (díade maternal), diante do incomodo e necessidade basta a criança chorar para ser reconfortada e saciada. Nesta condição, o mundo existe em sua própria função, há uma plena atuação do princípio do prazer.

Esse é o princípio de tudo, o jardim do Éden, como aparece na tradição judaico-cristã, mas também de inúmeras outras formas análogas em várias culturas.

Há sempre um início paradisíaco, inocência, onde todos os seres convivem em harmonia e não há escassez, doença e morte.

A idéia de um paraíso perdido, uma Idade de Ouro que remonta à origem dos tempos, é um arquétipo universal que revela a nostalgia por uma condição de harmonia que foi perdida e para a qual desejamos retornar.

Efetivamente todos nós já experienciamos uma condição de plenitude no início de nossas vidas, dentro do útero materno: lá onde a temperatura, o alimento, a proteção estavam sempre presentes sem que precisássemos fazer qualquer esforço; lá onde não havia separação, dualidade, angústia ou perdas e estávamos imersos e fundidos na totalidade.

No entanto, se quisermos crescer e nos desenvolver chega o momento em que temos que abandonar esse paraíso e como no Gênesis, somos expulsos da nossa inocência ou inconsciência original para que possamos aprender, a desenvolver a consciência e iniciar a jornada.

Esse período inicial é muito importante porque permanece como referência de um estado de harmonia e plenitude que já foi vivido realmente e que portanto pode ser recuperado.

Nos momentos mais difíceis e dolorosos essa vivência inicial pode servir como a chamada “luz no fim do túnel” e ser nossa guia rumo a saída para o sol. Porém, se nos recusamos a sair desse paraíso ele rapidamente se transforma e pode nos devorar, impedindo nosso crescimento e desenvolvimento. A “Mãe Amorosa” se revela então como a “Deusa Destruidora”, os animais amigos se transmutam em dragões e monstros ameaçadores. Assim, querendo ou não, somos lançados na outra etapa do caminho.

Toda vez que abandonamos uma situação conhecida e cômoda, que no entanto já estava esgotada em suas possibilidades de crescimento, é como se saíssemos do regaço materno, da segurança do paraíso para nos perder no caos de um mundo sem referências, a selva tenebrosa.

Esse início de jornada pode ser voluntário ou forçado por uma circunstância adversa que a vida nos proporciona, mas em ambos os casos é sempre um período muito difícil.

Não há sinais de orientação, não há estradas retas e bem demarcadas, não sabemos para onde ir, como ir e o quê procurar. Tem que ir andando, tateando, caindo e levantando.

É um período de perambulação mas também de grandes possibilidades de evolução. Ao se tornar peregrinos, buscadores e experimentadores e é exatamente esta incerteza que abre espaço para o “novo” surgir.

Caminhar dentro do caos com paciência, persistência e abertura para acertos e erros, faz surgir uma nova luz, uma nova percepção e o labirinto se revela como um caminho espiralado que pode nos levar ao centro, ao tesouro perdido, à harmonia e paz do paraíso.

Mas, durante a caminhada no labirinto não sabemos se estamos próximos ou não do centro. O caminho de volta também não é evidente e assim temos que aprender a enfrentar nossos medos e não fugir dos desafios.

É a partir da “busca” que o Santo Graal aparece no ciclo arturiano.

Na Távola Redonda havia uma crise coletiva, os cavaleiros já estavam perdendo o objetivo e os princípios da ordem da cavalaria. Quanto ele vivenciam uma experiência numinosa ao se depararem com a visão do graal.

O ensinamento religioso, bem como o consensus gentium, sempre e em todo o lugar, explica esta experiência atribuindo-a causas externas ao indivíduo. O numinosum é ou uma qualidade que pertence a um objeto visível ou a influência de uma presença invisível, que causa uma alteração peculiar da consciência.
(Psicologia e Religião – CW11, parag. 6)

O graal aparece em uma época em que está acontecendo uma crise espiritual na Idade Média e é exatamente com base nesta situação que o ciclo do graal assumiu uma forma e tomou vida.

O graal trata-se essencialmente do tema de um centro misterioso, do tema da procura de uma provação e de uma conquista espiritual.

...fala-se muito a respeito de vidas perdidas mas só é perdida a vida do homem que viveu tão iludido pelos prazeres da vida, ou pela sua tristeza, que jamais se tornou eterna e decisivamente consciente de si mesmo como espírito... ou (o que é a mesma coisa) que jamais se tornou consciente e, no sentido mais profundo, que jamais teve um vislumbre do fato que existe em Deus, cujo o grau de infinitude jamais é alcançado senão através do desespero.
(Citação contida no livro Ego e Arquétipo – pg 80)

O resgate da purificação, do encontro com Cristo o divino. E é atrás desta mesma vivência que os cavaleiros empreendem sua busca.

As religiões possuem um repositório que alimenta a busca, ou a experiência de transcendência existencial. Na psicologia junguiana entende-se o religar-se – à necessidade do homem se ligar a deus – como uma motivação de cunho arquetípico comum a toda humanidade e, essas representações constituem a base de todas as religiões, ou seja, em todas religiões encontramos um ponto de identidade tanto nos seus ritos, como em seus dogmas.

Extraído do texto traduzido de “A guided tour of the collected works of C. G. Jung de Robert H. Hopcke, “Jung fala que não existe nenhuma civilização, presente ou passada, no planeta que não tenha tido uma religião, um conjunto de crenças e de rituais sagrados. Por isso Jung postula a existência do instinto religioso dentro dos seres humanos, uma busca inerente da relação com algo ou alguém que transcenda as limitações humanas, um poder maior (...) Afastando-se da fé religiosa, os povos modernos buscam a salvação através do poder do pensamento racional e da tecnologia (...) A constatação de Jung, com relação a universalidade da religião, levou-o a considerá-la como manifestação do inconsciente coletivo. Sob esse prisma, ele definia que atualmente a religião se reporta a dois aspectos distintos: Em 1º lugar se constitui numa experiência religiosa no contato direto com o Divino, aspecto esse que ele denominou de “numinoso” (termo emprestado de Rudolph Otto) manifestado em sonhos, visões e experiências místicas.
Em 2º lugar, a religião consiste em práticas religiosas, em doutrinas e dogmas, bem como, em rituais e sanções que Jung considerava como necessárias a proteção contra o poder terrível de tal experiência direta com o numinoso.

No entanto, esta não é a prova mais difícil. Depois de ter vencido nossos medos, fragilidades e limitações e ter cumprido com as tarefas que a vida propõe, começa outra etapa que é o aprendizado da humanidade.

Tem que reconhecer que mesmo sendo heróico, o ego está subordinado a um princípio maior, e que só a conexão com este princípio pode proporcionar sentido e significado a todas as conquistas obtidas.

O herói não pode ficar preso na armadilha da sua própria habilidade e força em vencer os dragões, ele deve vencer também a sua vaidade e prosseguir a caminhada rumo ao centro.

Para isso ele (o ego) tem que reconhecer que sua força provém exatamente desse centro. Esse reconhecimento permite que o arquétipo do herói se transmute no arquétipo do Sábio e é essa vivência de sabedoria que finalmente nos leva de volta a casa, ao paraíso perdido.

Cada cavaleiro irá fazer sua trajetória, seu caminho, muitos retornam, outros morrem, enlouquecem, e como trataremos à seguir outros chegam perto, e outros conseguem viver a experiência do santo graal.

Segundo Évola1 as principais virtudes do graal são:

- Virtude de luz e força sobrenatural iluminante. Arrebatamento além da condição do tempo, satisfação perfeita de todos os desejos e paraíso.

- O nutrimento mais desejado – O da vida, da o alimento que cada indivíduo necessita.

- O Dom da vida

- Virtude de curar feridas mortais, renovar e prolongar a vida de forma sobrenatural (morte e renascimento)

- Regeneração

- Induz uma força de vitória e domínio

- Reconciliação consigo e com a vida

- A procura leva a vicissitude interior a totalidade.

- Transcendência

Se o graal por um lado tem uma virtude vivificante, por outro lado tem uma virtude temível destruidora. O graal cega, fulmina.

Este aspecto perigosa do graal deve ser considerado como o caso limite daquilo que o graal pode justamente operar, dependendo da natureza diferente daqueles que entram em contato com ele.

A força do graal destrói todos os que tentam usurpá-la, repetindo o gesto titânico, luciférico ou prometéico.

É o próprio excesso que a potência transcendente constitui para um ser condicionado e preso à sua limitação, o que faz agir como força destruidora uma força de vida.

A procura do graal está ligada diretamente a este tipo de procura é essencialmente uma vicissitude interior. Não se trata, como experiência, de algo, como um simples êxtase místico. É antes um poder primitivo que vem a ser positivamente evocado.

Quem sabe assumi-lo é qualificado para os altos encargos descritos pela lenda e que constituem o seu núcleo central.

A busca dos cavaleiros do Rei Artur pelo Graal representa o caminho espiritual que devemos fazer e que se estende entre pares de opostos, entre o perigo e a bem-aventurança, entre o bem e o mal, pois não há nada de importante na vida que não exija sacrifícios e algum perigo.

O tema da história do Graal diz que a terra está devastada, e só quando o Graal for reencontrado poderá haver a cura da terra. E o que caracteriza a terra devastada? É a terra em que todos vivem uma vida inautêntica, fazendo o que os outros fazem, fazendo o que são mandados fazer, desprovidos de coragem para uma vida própria.

Esquecem-se que são seres únicos, cada indivíduo sendo uma pessoa diferente das demais. A beleza de uma terra rica está exatamente na convivência dos diferentes, não na mistura deles. Se temos um lugar ou uma era em que todos se alienam e fazem a mesma coisa, temos a terra devastada: “Em toda a minha vida nunca fiz o que queria, sempre fiz o que me mandaram fazer”.

“...Qual será o resultado daquilo que faço hoje? Ou: que farei amanhã? Qual será o resultado de toda a minha vida? Por que devo viver? Por que fazer alguma coisa? Haverá na vida algum propósito que a morte inevitável que me aguarda não desfaça e destrua?
“Essas são as questões mais simples do mundo. Da criança estúpida ao ancião mais sábio, elas se encontram respondidas no espírito de todo ser humano. Sem ter respostas para elas, é impossível, como o revela minha experiência, que a vida siga seu curso”
(citação retirada do livro – Ego e arquétipo – Edinger, pg. 84)

O Graal se torna aquilo que é logrado e conscientizado por pessoas que viveram suas próprias vidas. O Graal representa (simboliza) o receptáculo das realizações das mais altas potencialidades da consciência humana.

O rei que inicialmente cuidava do Graal, por exemplo, era um jovem adorável, mas que, por ainda ser muito jovem e cheio de anseios de vida, acabou por tomar atitudes que não se condenavam com a posição de rei do Graal.

Ele partiu do castelo com o grito de guerra “Amor!”, o que é próprio da juventude, mas que não se coaduna com a condição de ser rei do Graal. Ele parte do castelo e, quando cavalgava, um muçulmano, um não cristão, surgiu da floresta (a floresta representando o nível desconhecido do nosso psiquismo). Ambos erguem as lanças e se atiram um contra o outro.

A lança do rei Graal mata o pagão, mas a lança do pagão castra o rei Graal.

O que isto quer dizer é que a separação que os padres da igreja fizeram entre matéria e espírito (já que Jesus sempre se referia ao Reino como um campo em que um semeador saiu a semear, ou uma rede atirada ao mar, ou a uma festa de núpcias, ou sobre as aves do céu e os lírios do campo, está claro que esta divisão pré-cartesiana foi fruto da mentalidade patriarcal dos padres da igreja, não do Cristo), entre dinamismo da vida e o reino do espírito, entre a graça natural e a graça sobrenatural, na verdade castrou a natureza.

E a mente européia, a vida européia, tem sido emaculada por essa separação. A verdadeira espiritualidade, que resultaria da união entre matéria e espírito, tal como era praticada pelos Druidas, foi morta. O que representava, então, o pagão? Era alguém dos subúrbios do Éden. Era um homem que veio da floresta, ou seja, da natureza mais densa, e na ponta de sua lança estava escrita a palavra “Graal”. Isso quer dizer que a natureza aspira ao Graal.

A vida espiritual é o buquê, o perfume, o florescimento e a plenitude da vida humana, e não uma virtude sobrenatural imposta a ela. Desse modo, os impulsos da natureza são sagrados e dão autenticidade à vida.

Esse é o sentido do Graal: Natureza e espírito anseiam por se encontrar uma ou outro, numa atitude holística. E o Graal, simboliza a paz que advém da união.

O Graal que é encontrado se tornou o símbolo de uma vida autêntica, vivida de acordo com sua própria volição, de acordo com o seu próprio sistema de impulsos, vida que se move entre os pares de opostos, o bem e o mal, a luz e as trevas.

Uma das versões da lenda do Graal começa citando um breve poema: “Todo ato traz bons e maus resultados”. Todo ato na vida desencadeia pares de opostos em seus resultados.

O melhor que temos há fazer é pender em sofrimento, que resulta de compreender o outro. É disso que trata o Graal. É isso o que Buda quis dizer por tomar o caminho do meio. É isso o que significa estar crucificado entre o bom e o mal ladrão e ainda orar ao Pai...

O Graal do romance medieval arturiano e cristão lembra que o caminho é a grande busca pelo sagrado, por aquilo que transformará internamente a pessoa e o mundo.

O Santo Graal significa algo único para cada sincero buscador do tesouro oculto e eterno que ele representa.

Contudo, de um modo ou de outro, as narrativas geralmente falam de um cavaleiro que viaja para uma terra amaldiçoada, talvez governada por um rei aleijado.

Chegando ao centro desse país, o cavaleiro ousa entrar num castelo que contém como seu maior tesouro um cálice de brilho imperecível e que é guardado por cavaleiros e donzelas que usam talismãs enigmáticos, tais como uma espada partida ou uma lança que goteja sangue.

A pergunta enigmática, “A quem o Graal serve?”, deverá ser feita pelo cavaleiro a fim de transformar a si mesmo e restaurar as trevas devastadas.

Em todas as versões, há uma sensação de estranheza mágica e onírica, sugerindo que, em última análise, a história é sobre iniciações e que ocorre uma transformações interior, nos mais profundos níveis de consciência de onde vêm os sonhos e a inspiração.

Todos aqueles momentos da vida individual em que as leis gerais do destino humano rompem as intenções, as expectativas e concepções da consciência pessoal são, ao mesmo tempo, etapas do processo de individuação. De fato, este último é a realização espontânea do homem total.

O homem em quanto consciente do próprio eu é apenas uma parte da totalidade vital, e sua existência não representa a realização deste todo.

Quanto mais o homem se torna consciente do próprio eu, tanto mais se separa do homem coletivo que ele próprio é, e se encontra mesmo em oposição a ele.

Como, porém, tudo o que vive tende para a totalidade, a atitude unilateral inevitável da vida consciente é corrigida e compensada constantemente pelas componentes essenciais da natureza humana, de modo a integrar definitivamente o inconsciente na consciência, ou melhor, a assimilar o eu a uma personalidade mais ampla.

Estas considerações são inevitáveis, se pretendemos entender o sentido dos “grandes” sonhos. Estes, com efeito, utilizam inúmeros mitologemas que caracterizam a vida do herói, esse personagem maior do que o comum dos mortais e de natureza semidivina.

Trata-se de aventuras perigosas, de provas como as que encontramos nas iniciações. Há dragões, animais benfazejos e demônios. Encontramos o velho sábio, o homem-animal, protegido por alta muralha, os processos de transformação e a substâncias da alquimia, etc., tudo isto coisas que não apresentam nenhum ponto de contato com as banalidades da vida quotidiana. A razão para estas fantasias é que se trata de realizar uma parte da personalidade que ainda não existe e está somente em vias de realização. (CW8 – A dinâmica do Inconsciente, parag. 557/558)

1Informações retiradas do livro: O mistério do Graal – Julius Évola.

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