Entenda como um mito pode trazer reflexões atuais

Aline Peres de Carvalho

Quer sejam cavaleiros ou camponeses, clérigos, qual a semelhança entre estes homens do século XII e os homens do século XX?

Pode se afirmar que na condição de “homem” com seus desejos, sonhos, frustrações e mito pessoal raramente estão satisfeitos com sua existência. As realidades cotidianas são tristes, vãs, ingratas e enganosas.

O mundo que nos cerca é ilusório, existe uma sede de um outro universo, de um novo reino em que o homem não tenha que se submeter aos caprichos da natureza nem a força de sua condição social.

Nesta ânsia busca-se um mundo idílico e longínquo em que as palavras, as pessoas e as coisas possam adquirir sua significação verdadeira e não aquela que simula nesse mundo, na sua realidade e condição de vida.

Essa necessidade de verdade, essa vontade de esquecer, esta nostalgia de uma idade de ouro, cada um vive a sua maneira.

A literatura descreve lugares maravilhosos, povoados de animais estranhos e criaturas fabulosas, lugares onde o poder e a riqueza são acessíveis a todos e onde cada um, a seu capricho, pode tornar-se herói, imperador ou mágico.

De resto feiticeiros e bruxas não pertencem apenas à literatura: charlatões e iluminados de toda espécie percorrem o ocidente propondo tanto ao vilão quanto ao monge ou senhor poções, relíquias, ideias e sonhos.

A busca de algo que venha preencher o vazio da alma é arquetípico a todos nós. A busca pelo poder, dinheiro, conhecimento, status, política, saúde, tecnologia, pátria, ideologia, passam a ser o graal da humanidade.

E muitas vezes, como Percival, os homens não sabem fazer a pergunta “a quem o Graal serve?” Ficamos cegos e perdidos diante do poder e da grandeza dessa força que tanto ansiamos e buscamos.

E muitas vezes temos que fazer o caminho de volta para encontrarmos a nós mesmos, pois só assim teremos condição de integrar e conduzir nossas conquistas.

Como na Távola Redonda, todos nós podemos ser reis como cavaleiros. Podemos ser soberanos de nossa vida, condutores de nosso destino. E também em grande parte de nossa existência somos cavaleiros em busca de nossa verdade.



E qual seria esta verdade?

Essa verdade, fala da verdade da alma, fala do espírito, fala de Deus.

Toda espiritualidade segue o caminho no qual todo o ser humano ciente disso ou não, é um peregrino.

Esse é o caminho que leva de volta ao nosso lar último e eterno, do qual antes do começo dos tempos, nos lançamos como aventureiros buscando a experiência de todos os planos do ser, mas às vezes esquecendo nossa herança.

O caminho de volta ao lar serpenteia através de incontáveis mundos, eras e formas de vida.

As formas externas que o caminho pede para a espiritualidade assumir em tempos e lugares específicos podem não ser absolutos, embora essas formas possam ser o caminho dentro do Caminho ao qual somos absolutamente chamados num tempo e lugar específicos.

No curso da nossa jornada para o lar, encontramos muitas barreiras, testes e prodígios com os quais precisamos lidar com toda a fé e sabedoria que possamos reunir.

Na nossa grande peregrinação, os que estão em harmonia com esse modo de viajar serão auxiliados pelo espírito do romanceiro, o qual acima de tudo sustenta que aquelas imagens sublimes e a imaginação (literalmente a produção de imagens) combinadas com sentimentos exaltados, são poderosos guias que nos precedem no caminho.

Dentre as imagens as mais fortes são as do passado distante e as que tem os subtons misteriosos, porém persuasivos do mito e do arquétipo.

Hoje, para algumas pessoas, as imagens do mundo medieval com suas histórias maravilhosas, por mais idealizadas que fossem tem uma força específica.

Uma força que retrata características de um mundo místico, envolto de mistério e magia, em oposição ao mundo prático e objetivo que prevalece uma única verdade: “ A do Pai”.

Retrata o desequilíbrio de opostos. Onde a necessidade de integrar tanto o aspecto pagão como cristão irá contribuir na alma coletiva dos povos.

Onde os dois símbolos, a Cruz e o Graal, possam se relacionar, cada um com a sua verdade única e universal: O encontro com Deus.

Manter a cruz diante dos nossos olhos à medida que viajamos nos lembra que, seguindo o exemplo de Jesus.



Precisamos morrer com Cristo e nos erguer com ele

A Cruz nos diz que o caminho cristão é um caminho de morte e transfiguração, e que, antes de seu fim, nós próprios precisamos ser crucificados e nos erguer do túmulo, qualquer que seja a forma assumida por essas extraordinárias iniciações em nossa vida.

O graal do romance medieval arturiano e cristão lembra-nos que o caminho é também uma grande busca pelo sagrado, por aquilo que transformará a nós mesmos e ao mundo.

O Santo Graal significa algo único para cada sincero buscador do tesouro oculto e eterno que ele representa.

Como já foi citado anteriormente as histórias que relatam a trajetória do Santo Graal falam de iniciações e que ocorre uma transformação de onde vem os sonhos e a inspiração.

Esse modo de ver as lendas do graal é comparável a visão esotérico da religião. Sem negar a historicidade de muitos eventos descritos nas escrituras e comemorados nas festas anuais da fé cristã, a visão é que sua real importância está em serem poderosos mitos e alegorias das experiências que todos nós, cada um a seu modo, precisamos ter: experiências de sofrimento e redenção, de busca e encontro, de luta com os demônios interiores e do encontro do ouro oculto.

O etos de elevada aventura interior e de esplendor majestoso, tão bem refletido nas luzes e sombras exteriores das lendas arturianas tal como são contadas por Malory (ver anexo) e outros, ressoa com o espírito desse Caminho.

Cavalgadas por belos castelos em países estranhos, ricas e alegres festas em Camelot, nas quais todas as pessoas eram consideradas hóspedes de honra, o costume de Artur de nunca comer na festa de Pentecostes antes de ouvir ou ver alguma grande aventura ou milagre.

Todas essas maravilhas são partes do tesouro interior do buscador espiritual. Delas jorram os mistérios da fé, que podem inspirar nossa alma e, assim, dar alegria a todos os que encontramos.

O mundo de hoje apresenta muito de um reino devastado: fome, danos ao ambiente natural, dificuldades econômicas, grandes injustiças, desespero, alienação pessoais e a ameaça de guerra e aniquilamento.

Nossos reinos refletem o estado de nossa alma coletiva e não apenas a se nossos líderes. Esta é uma época da história humana em que há grande necessidade de heroísmo.

Tal como os heróis, nós também podemos e devemos contribuir para restaurar a vida, a saúde e a fecundidade. Para termos esta condição necessitamos primeiramente Ter empreendido nossa jornada pessoal, descoberto o nosso destino e ofertado nossas próprias singularidades.

Isto nos torna responsáveis, se visualizarmos que o mundo é um quebra cabeças e que cada um de nós somos uma peça. Coletivamente, à medida que todos vão dando sua contribuição, existe a possibilidade de transformação.

O ciclo arturiano se torna eterno em diversas épocas pois ele se trata de aspectos arquetípicos que irão constelar no “vazio” de cada realidade e da demanda do momento.

Por isso sempre estará aberto para discussões, análises, reflexões e descobertas. Seus aspectos pagãos (sagrados) convergendo com o profano (inserção de novos valores e costumes).

Alguns tópicos que podem ser abordados e pesquisados à partir da perspectiva deste mito.

A busca e o retorno dos aspectos femininos, que ao longo da história foram ficando reprimidos. E a necessidade do equilíbrio (feminino/masculino) na humanidade.

A trajetória do herói, sob várias perspectivas: Artur como herói de uma época e os demais personagens também como este arquétipo.

O papel de Galahad no mito: como herói, como self, como unificador.

O papel de Lancelot (aspectos da culpa) da sombra.



Uma análise mais aprofundado do aspecto religioso do mito

Uma análise sobre os símbolos que se repetem tanto na cultura celta como na cristã.

A tentativa e a esperança de unir o espírito e a matéria é algo que nos dá esperança e nos faz empreender a busca.

Como o povo Bretão espera a volta de Artur para esta unificação, estaremos também nesse caminho da individuação em busca de nossa alma.

E para que isso seja possível precisamos estar ligados ao nosso aspecto divino... a Deus.

"Se eu quiser falar com Deus tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz tenho que calar a voz. Tenho que folgar os nós dos sapatos e da gravata dos desejos e dos receios. Tenho que esquecer a data ,que perder a conta. Tenho que ter as mãos vazias ter a alma e o corpo nus.

Se eu quiser falar com deus tenho que aceitar a dor, que comer o pão que o diabo amassou. Tenho que virar um cão, tenho que lamber o chão dos palácios, dos castelos suntuosos dos meus sonhos. Tenho que viver tristonho e apesar de um mal tamanho alegrar meu coração.

Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar, tenho que subir aos céus sem cordas para segurar, tenho que dizer adeus dar as costas e caminhar. Decidido pela estrada que afinal vai dar em nada, nada, nada... DO QUE EU PENSAVA ENCONTRAR"
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