O entendimento histórico do mito de Rei Artur e a contextualização atual

Aline carvalho

Entende-se que uma civilização só consegue ter sua existência assegurada quando ela deixa ao longo dos séculos, permanências e sobrevivências, quando de alguma forma marca, no tempo e no espaço, sua passagem pelo universo humano.

Sempre que se entra em contato com assuntos relacionados com o mito e a mitologia depara-se com um universo muitas vezes ambíguo com diversas versões e vertentes.

Para avaliar o mito, encontrar o quanto existe de verdade histórica, o quanto é lenda e porque exerceu tamanha importância na imaginação e no coletivo, é necessário retornar o longínquo passado e de lá buscar dados que irá contribuir para maior compreensão do mesmo.

Este trabalho irá tratar e se basear em um mito de origem celta, por isso se faz necessário ter um breve conhecimento sobre este povo, seus costumes, sua origem, religião, costumes, maneira de pensar, organização social e cultura1.

O CICLO ARTURIANO2 é o conjunto dos textos, sejam romances em verso, sejam novelas em prosa que se ocupam da personagem do Rei Artur de seus cavaleiros da Távola Redonda, do mito arturiano.

A versão que este trabalho irá se basear é de uma autora que se baseia na obra escrita por Godofredo de Monmouth.

Como já foi visto foi uma das obras básicas que pode ser considerada como matriz de muitos contos da Távola Redonda, é a História Regum Britanniae, de Geoffroy de Monmouth, escrita por volta de 1135. O grande número de manuscritos dessa obra, suas diversas traduções em língua galesa com o título de Brut y Brenhinedd (Brut dos Reis, nome do ancestral mítico dos bretões, Brutus), demonstra o sucesso imediato que ela obteve. E, graças a adaptação feita pelo normando Robert Wace em 1155, sob o título de Romance de Brut, a obra de Geoffroy invadiu o continente europeu e foi uma das principais causas da criação dos romances da Távola Redonda.

A Historia Regum Britanniae é ambiciosa e se trata realmente de uma história dos reis da Bretanha, desde as suas origens até os períodos pós-arturianos. O que se esconde na obra ao pretender que os bretões tivessem por ancestral um certo Brutus, descendente de Enéias e, portanto, descendente dos troianos? Ela pretendia, através de uma astúcia literária, conferir aos bretões uma espécie de certificado de nobreza.

De qualquer forma, na época, a História Regum Britanniae atendeu a uma necessidade. Estava na moda, em todos os lugares, escrever a história nacional de um povo e, na falta de documentos, inventava-se. Era preciso recuar muito longe a antigüidade do povo em questão, era preciso engrandecer o seu passado, para que ele se mostrasse grande e temerário no presente. Posteriormente, não se pode esquecer também a política cultural dos soberanos anglo-normandos: em luta ininterrupta com a dinastia dos Capetos, herdeira da grande figura de Carlos Magno, era preciso buscar na tradição insular uma justificativa para sua presença e seus direitos sobre a região, e isto foi feito colocando-se em evidência rei Artur – acrescida de valores sobrenaturais conferidos pela presença de Merlim.



O maravilhoso bretão e o universo do Graal

O maravilhoso da literatura arturiana oferece um mundo muito mais feérico do que fantástico. O monstruoso cede, ali, o lugar ao estranho. Há apenas um deslocamento parcial da realidade. As criaturas misteriosas e os fenômenos sobrenaturais são mais fascinantes do que perturbadores, pois em sua estranheza conservam sempre alguma aparência real. Além disso, suas freqüentes intervenções na existência cotidiana jamais são totalmente gratuitas; representam sinais, advertências, mensagens enviadas do Além. A mentalidade medieval, com efeito, crê na existência de intermediários entre o mundo de Deus e o mundo dos homens: almas dos mortos, anjos e demônios, gênios e fadas, que se manifestam por prodígios cuja significação é premonitória. Daí, por exemplo, os historiadores e cronistas não deixarem de assinalar tudo aquilo que, precedendo os grandes acontecimentos, altera de alguma forma a ordem natural das coisas: milagres, sonhos, aparições, cometas, eclipses:

No ano de 1187 da Encarnação do Senhor, a 4 de setembro, houve um eclipse do sol no décimo oitavo grau da constelação de virgem; durou duas horas. No dia seguinte, Sábado, 5 de setembro, às onze horas da manhã, nascia Luís, filho de Filipe Augusto, ilustre rei dos franceses.

Nas obras literárias, a interpretação desses prodígios está reservada a especialistas, entre as quais os autores tomam o cuidado de distinguir os magos como Merlim, que utilizavam sua ciência apenas para fins generosos, dos feiticeiros que firmaram um pacto com o Diabo e buscam apenas prejudicar os homens. Tanto uns quanto outros, além de astrólogos, possuem poderes de fisisciens: conhecem as virtudes das plantas e sabem preparar as poções do amor.

A história descrita é dividida em 3 partes:

- O Nascimento de Artur

- A Busca do Santo Graal

- A Morte do Rei Artur

Como já foi comentado anteriormente da importância de situar “o mundo” onde a história de Artur se desenvolve será feito um breve relato antes de descrever a história.

Os lugares de ação eram castelos, muitas vezes inquietantes, desolados ou sitiados; as florestas, lugares mágicos que remontavam a cultura celta, tinham dupla face: uma escura e noturna propícia a toda sorte de malefícios, e outra clara e diurna, propícia para encantamentos felizes.



O Mundo da Cavalaria, Mundo Feudal e Cristão

O mundo de Artur era a imagem do final do século XII, no qual Chrétien de Troyes escrevia e, mesmo assim, refletia apenas uma pequena parte desse mundo, o de uma elite, de um pequeno grupo de privilegiados. O mundo da cavalaria era um mundo particular, regido por leis precisas, um mundo violente, feito de guerras e de caçadas, de batalhas e de torneios, mas refinado do ponto de vista do amor-cortês.

Nesse mundo marcado pelo cristianismo, os feitiços e as fadas estavam sempre presentes, mas foi o caráter religioso cristão que se tornou predominante.

No início da carreira de todo cavaleiro, quando da cerimônia da armação, o rapaz tinha que passar a noite rezando e, depois, assistir à missa e comungar. Era armado cavaleiro por seu suserano ou por um senhor mais velho, mas suas armas, antes do uso, eram abençoadas pelo padre.

Do mesmo modo, o juramento que prestava nessa ocasião e que o acompanharia por toda a vida, tinha um caráter religioso porque, se ele não respeitasse, seria banido da sociedade e declarado traidor. Diante de seus pares e diante de Deus, o cavaleiro jurava permanecer leal a seu suserano, proteger as damas, os fracos e oprimidos, e defender a Igreja em qualquer ocasião.

As grandes festas religiosas da Páscoa e do Pentecostes tinham um papel importante. Era quase sempre na época do Pentecostes que Artur reunia seus vassalos, armava seus cavaleiros, organizava torneios, da mesma maneira como faziam os grandes senhores e reis do século XII.

Os casamentos dos príncipes e as festas religiosas eram, portanto, ocasiões de divertimento que propiciavam torneios suntuosos nos quais centenas de cavaleiros, às vezes, se enfrentavam. O mundo da cavalaria se movimentava muito. Os cavaleiros se obrigavam a viajar longas distância, ou para guerrear, ou para participar de torneios que, para alguns, era a única fonte de renda.



Personagens

- Rei Artur – Gales, Armórica, ilha da Bretanha. Fenômeno complexo, tanto mitológico quanto histórico. Rei ou Imperador supremo das duas Bretanhas cujas aventuras e feitos são descritos por um imenso ciclo literário, filho de Uther Pedragon e Igraine, meio irmão de Morgana, pai de Modred. Os textos fundamentais são todos celtas insulares, mas o tema arturiano invadiu a literatura francesa, inglesa e alemã. O nome de Arthur pode ser simbolicamente ligado a “urso”. Casado com Guenièvre; fundador da ordem dos cavaleiros da Távola Redonda na tardia versão cristianizada. Encontra-se em hibernação na ilha de Avalon, de onde um dia, os bretões acreditam, voltará.

- O mago Merlim (merlinus ambrosius) - Mago/Profeta, neto do Rei dos Demetae (sul do país de Gales), mãe freira.

- A Rainha Guenièvre – belíssima esposa de Artur, objeto de amor de Lancelot, amor que superou os limites do amor-cortês. Cristã, levou a Távola Redonda como dote.

- Fada Morgana – Meia-irmã de Artur, filha de Igraine com o duque Gorlois Cornualha de Linhagem Sagrada, mãe do único filho de Artur – Modred. Gales, Armórica. Deusa mãe, deusa primordial de onde vem toda a vida. O nome supõe uma forma antiga: “mori-gena”, Nascida do Mar. Ela reina com suas sete irmãs sobre a ilha de Avallon. Ela e suas irmãs levam Arthur após a sua morte terrestre.

- Modred – Filho de Artur, irá travar uma batalha com o pai para suceder o trono.

- Uther Pedragon

- Igraine – Mãe de Artur e Morgana, irmã de Viviane do Lago, linhagem sagrado.

- Lancelot – O melhor cavalheiro da Távola, melhor amigo de Artur, filho de Viviane do Lago, pai de Galahad.

- Galahad – filho de Lancelot com Elaine.

- Percival – típico cavaleiro aventuroso, sempre pronto a combater em defesa das damas ou donzelas em dificuldade.

- Viviane do Lago – Senhora do outro mundo, grande paixão de Merlim, tia de Artur, entregou Excalibur a Artur.

- Feth Fiada – “Bruma ou véu mágico” que torna os deuses invisíveis. Somente os Tûatha-Dé possuíam o segredo. É esta característica que os torna materialmente distintos dos humanos. Era visto como um quinto elemento da natureza.

- Avallon (Aballo, Afallach, Emain Ablach) – Gales, Armórica. Nome da ilha mítica das macieiras, ilha afortunada, onde vivem os heróis e as divindades celtas. Lugar para onde Arthur foi levado por sua irmã Morgana após a batalha de Camlann e de onde retornará. Terra de abundância, onde tudo cresce naturalmente. O nome é o mesmo que designa a maçã, afal, aval, fruto da ciência e da imortalidade.

- Maçã – Fruto da ciência, magia e revelação. Alimento maravilhoso. Aquele que come a maça não sente fome nem sede. Ela é inesgotável.

- Camlann, Camelot – Gales. Lugar da batalha lendária no curso da qual Arthur foi mortalmente ferido.

- Cálice – substituto e equivalente do caldeirão. Contém a bebida embriagadora que possibilita a embriaguez do poder, do conhecimento, e do amor. A beberagem permite ascender ao êxtase do sagrado. É também o cálice da verdade que se quebra diante de palavras mentirosas. O caldeirão e o cálice são os protótipos e arquétipo do Graal.

- Espada – um dos quatro objetos mágicos trazido de Findias pelos Tûatha-Dé. A espada é infalível e aquele que for ferido por ela morre.

- Excalibur – na lenda celta, espada mágica que só Artur pode extrair da pedra. Em hebraico significa pedaço de ferro e aço.

- Outro Mundo – Pode estar localizado numa ilha, num lago, sob um túmulo. Entre os bretões é a ilha das maçãs, Avallon; entre os gaélicos possui numerosos nomes:

Tir na nOg – Terra dos Jovens;

Tir na mBéo – Terra dos Vivos;

MAG MELD – Planície dos Prazeres;

TIR TAIRNGIRÉ – Terra da Felicidade;

MAG MOR – Grande Planície;

Tir na mBãn – Terra das Mulheres;

EMAIN ABLACH – Terra das Fadas;

TIR SORCHA – País Brilhante;

TIRR AILL – Outro Mundo.

Entretanto, na concepção celta, o Outro Mundo é aquele que se opõe ao dos humanos. É o mundo dos deuses, dos seres sobrenaturais e feéricos, que pode se impor ao mundo dos homens e impregná-lo com sua presença.

- Cavalo – Animal nobre entre os celtas, porque é um animal essencialmente servidor das guerras. Os cavalos são vistos como possuidores de inteligência humana. Eles vêm do Outro Mundo e retornam apóes a morte do herói. Sendo assim, são vistos como condutores das almas, atravessa a fronteira dos dois mundos e transportam os defuntos ao Outro Mundo.

- Sîd, Sîde (plural) – Irlanda. São os túmulos (tertre funéraire) ou quaisquer outros monumentos megalíticos. São a parte visível do Outro Mundo. O Sîd também pode ser representado pelas ilhas do oceano e pelos lagos.

- Táliesin – Gales. É o chefe dos bardos de Arthur. Uma das mais importantes figuras galesas, meio histórica. Ele aparece como uma encarnação do druismo e do bardismo.

- Távola Redonda – forma pouco freqüente na Idade Média, pois, na maioria dos casos, as mesas eram feiras de grandes tábuas, retangulares posta sobre cavaletes, montadas para refeições. A forma redonda dessa mesa permitia que os 12 cavaleiros nomeados pelo rei se sentassem em torno dela em pé de igualdade e, seu formato, talvez seja uma reminiscência do círculo que os guerreiros celtas dos primeiros tempos formavam em torno de seu chefe.

- Geoffrey of Monmouth – Escreveu a Historia Regum Brittaniae, no século XII. É a partir dele que Arthur alcança o renome, igualando-se a Carlos Magno e Alexandre. É ainda através dele que Arthur alcança o Continente.

- O Graal - taça misteriosa que vai se tornar o objeto demanda (busca) para os cavaleiros da Távola Redonda. Sua origem varia conforme os relatos, mas teria servido a Ceia de Cristo, ou teria contido o sangue dele depois de sua morte.



O Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda

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1Estas informações se encontram em anexo, junto a um cronograma contendo datas e acontecimentos reais.

2Informações retirada do livro “A Demanda do Santo Graal”

3Informações retiradas do livro – “No tempo dos Cavaleiros da Távola Redonda”...

4Convém notar, o que se refere aos lugares, que em todos esses relatos, o nome Bretanha designa a atual Inglaterra e a Pequena Bretanha a Bretanha Francesa.

5Festa católica celebrada 50 dias após a Páscoa em comemoração da descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos.

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